absinto e minduim
quinta-feira, 2 de junho de 2011
2º ato: Lira dos vinte anos - críticas 3/3 - Passeiweb
A obra é fruto dos dramas de um adolescente que se vê entre desejos e frustrações, vontades e decepções constantes, o que corporifica as tendências psíquicas de uma geração já que o Romantismo pode ser considerado um movimento de adolescência, isto é, marca-se pela ambiguidade de uma vida ao mesmo tempo frágil e poderosa.
Incompreendido na morbidez e na valorização de aspectos decadentes (melancolia, tédio, pessimismo, vício) Álvares de Azevedo se encontrou cansado precocemente da vida e sentia um desejo de fuga que concretizou através de sua poesia que, embora marcada pela introspecção e individualismo, relata as correntes obscuras de seus desencantos e receios.
Já na Epígrafe de Bocage percebe-se a intuição antecipada da sua decadência. Daí, talvez, ter se atirado aos livros como quem tem pouco tempo para entender o que é a vida e adquirir uma lucidez intelectual que o faz se referir a épocas, autores e obras distantes e estranhas à sua realidade.
Mergulhado no spleen byroniano e conscientemente baseado na contradição, descrente e derrotado, escreveu na Lira dos Vinte Anos os poemas mais significativos de sua obra poética. A metrificação sempre variada, mas imperfeitas, ritmos alucinantes comprovam que a liberdade criativa baseada na emoção, característica do Romantismo, haveria de ser respeitada.
A Lira dos Vinte Anos compõe-se do que há de melhor na produção de Álvares de Azevedo: Idéias Íntimas, Spleen e Charutos, Lembranças de Morrer, Se Eu Morresse Amanhã, É Ela! É Ela! É Ela! É Ela!, são alguns dos poemas mais expressivos do Romantismo gótico.
Estruturalmente divide-se em três partes; mas do ponto de vista temático, em apenas duas, pois a primeira e terceira partes têm temas assemelhados: a morte, a família, os temas da adolescência, o sonho, a religiosidade, a forma feminina como obsessão; a segunda parte, no entanto, traz o irônico, o "satânico", a mulher, ainda que em sonho, aproximada do erótico, carnal.
Primeira parte
É composta por 33 poemas, inicia-se por um prefácio que tem epíteto sugestivo de Bocage: Cantando a vida, como o cisne a morte. Contém poemas cuja temática é intimista: dores do coração, medo da morte, a mulher que ora se mostra, ora se esconde, a família, o sonho e a fantasia que se misturam principalmente através do jogo metafórico na erotização da mulher. Há nessa parte o aparecimento de símbolos que deixam entrever a sexualidade reprimida. O adolescente ingênuo inspira-se nos seus familiares, nas amadas virgens sonhadas e nunca reveladas exatamente, fazendo-se parecer sentimental e infeliz, sendo sua dor acalmada pela lembrança da mãe e irmã. Álvares de Azevedo é um anjo que chama seus versos de “primeiros cantos de um pobre poeta” que, logicamente, vive num “mundo visionário e platônico”. À face de Ariel, personagem de Shakespeare, a primeira parte representa o Bem, adolescente e casta.
Segunda parte
A segunda parte da Lira dos Vinte Anos é composta por 14 poemas e não se identifica tematicamente com a primeira e a terceira. Inicia-se também por um prefácio:
Cuidado, leitor, ao voltar esta página!
Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. Vamos entrar num mundo novo, terra fantástica, verdadeira ilha Baratária de D. Quixote, onde Sancho é rei; (...) Quase que depois de Ariel esbarramos em Caliban.
A pureza abre espaço para um porte demoníaco, macabro, irônico, amargo, sarcástico e cruel: a unidade do livro funda-se numa binomia. Duas almas que moram nas cavernas de um cérebro, verdadeira medalha de duas faces. Humor negro que valoriza a decadência e a morte e a fuga através da dispersão cultivando o spleen. O poeta é um moço que envelheceu precocemente e entra em conflito com a realidade. E importante notar a proximidade com a prosa em algumas poesias dessa parte onde teríamos Caliban, personagem de Shakespeare, que representa o mal, o lado escuro dos seres, a desordem, o desequilíbrio, a face do próprio Álvares de Azevedo, segundo ele mesmo, tragado pelos vícios e amadurecido antes do tempo.
Dito isso, está claro que o Álvares de Azevedo quer fazer ressaltar algo: na Parte II estão contidos os poemas irônicos, as paródias, um suposto "satanismo" somente encontrado em Noite na Taverna.
Terceira parte
Contém trinta poemas, formando ao todo 77 composições poéticas. Ressurge o casto e sentimental poeta que leva às últimas conseqüências seu anti-romantismo, constituindo-se da sua própria superação da idealização feminina e do amor platônico.
Não há nenhum prefácio, nenhuma indicação de abertura; mas sabemos que, tematicamente, encontraremos a mesma intenção da primeira parte: devaneios adolescentes, amor inacessível, erotização metaforizada, família, os temas da morte e do sofrimento, o poeta tão jovem, e o mesmo intimismo, o tom inquieto e confessional.
2º ato: Lira dos vinte anos - críticas 2/3 - Guia do Estudante
Lira dos vinte anos é organizada em três partes. A primeira apresenta uma poesia de cunho idealista, sentimental e abstrato. Na segunda, o poeta envereda pela ironia e pelo sarcasmo. A terceira é um retorno à dicção da primeira.
ARIEL E CALIBAN
As poesias são escritas sob o signo das entidades místicas Ariel e Caliban, que foram tomadas emprestadas da peça A Tempestade, de William Shakespeare. Pode-se dizer que, grosso modo, Ariel representa a face do bem e Caliban, a do mal. Em Lira dos Vinte Anos, esses personagens encarnam as duas facetas exploradas pelo autor na primeira e na segunda partes do livro.
Com Ariel estão os temas caros ao Romantismo, como o amor, a mulher e Deus, trabalhados num viés platônico e sentimental. A mulher assume caráter sobre-humano de virgem angelical, objeto amoroso de um encontro que, para a angústia do eu-lírico, nunca se realiza. Caliban, por sua vez, é a face sarcástica, irônica e autocrítica do fazer poético. Sobressaem os temas da melancolia, da tristeza, da morbidez e de Satã.
A primeira parte recebe uma influência mais idealizada e terna, típica dos franceses Musset e Lamartine; a segunda, irônica e satânica, vem diretamente do poeta Lord Byron.
BYRON E MUSSET
As influências literárias em Álvares de Azevedo têm papel vital em seus trabalhos artísticos. Não apenas como fonte de inspiração, mas como motivos literários propriamente ditos. Essas referências, citadas textualmente, funcionam como se fossem personagens metonímicos do universo poético do eu-lírico, servindo-lhe de companhia nas noites de profundo lirismo.
Junto do leito meus poetas dormem – O Dante, a Bíblia, Shakespeare e Byron –
Byron e Musset, no entanto, estão mais presentes no universo de influências do poeta, principalmente o primeiro. As razões estão no caráter lendário que teve a vida de Lord Byron, repleta de aventuras amorosas, e no fato de que o poeta britânico foi o grande modelo de poeta ultrarromântico. Musset, seguidor de Byron em via mais sentimental, é para o poeta brasileiro um meio amenizador do impacto da poesia do primeiro em sua consciência literária. Pode-se dizer que, na primeira parte de Lira dos Vinte Anos, a influência de Byron é regida pelo filtro da leitura de Musset. Daí o tom sentimental e idealizado. É o que se pode perceber nos versos de Anjos do Mar:
As ondas são anjos que dormem no mar,
Que tremem, palpitam, banhados de luz...
São anjos que dormem, a rir e sonhar
E em leito d’escuma revolvem-se nus!
Na segunda parte, é como se Byron estivesse diretamente ligado ao canal criativo do poeta brasileiro. Basta ver o sarcasmo ferino e tétrico do conjunto de poemas. Um exemplo é a trova de O Poeta Moribundo, parte de Spleen e Charutos:
Poetas! amanhã ao meu cadáver Minha tripa cortai mais sonorosa!...
Façam dela uma corda, e cantem nela Os amores da vida esperançosa!
A OBRA
Lira dos Vinte Anos é o trabalho mais conhecido de Álvares de Azevedo. A obra contém, na primeira parte, um prefácio geral e uma dedicatória à mãe do poeta. São 33 poemas, que vão de No Mar até Lembrança de Morrer. A segunda parte é formada por 19 poemas, além de um elucidativo prefácio que abre a seção. Os poemas começam por Um Cadáver de Poeta e vão até Minha Desgraça, incluindo a série Spleen e Charutos.
Como foi dito, a terceira parte, com textos que vão de Meu Desejo a Página Rota, está tematicamente ligada à primeira. A análise dos poemas iniciais se aplica também a essa seção final da obra.
PRIMEIRA PARTE
O primeiro prefácio de Lira dos Vinte Anos é um importante elemento de compreensão dessa seção do livro. No texto, o poeta introduz uma perspectiva daquilo que o leitor encontrará nos poemas. São lamentos de um eu-lírico tímido e inexperiente, que se apresenta ao público: “São os primeiros cantos de um pobre poeta. Desculpai-os. As primeiras vozes do sabiá não têm a doçura dos seus cânticos de amor.
É uma lira, mas sem cordas: uma primavera, mas sem flores, uma coroa de folhas, mas sem viço”.
Percebe-se, nessas linhas iniciais do prefácio, a configuração de um eu-lírico que se apresenta num conjunto de antíteses sobre o fazer poético. É algo muito característico do romantismo esse dilaceramento do eu diante do mundo, que se traduz em contradições. Nota-se, pelas imagens do prefácio (lira, cânticos, canto, harmonia, vibrações), como o poeta elabora uma apresentação metalinguística, ou seja, que trata do próprio fazer poético.
A incapacidade de atingir a plenitude da beleza poética se traduz em uma repressão dos sentimentos de gozo. O tema do “medo de amar” ilustra de maneira exemplar o dilaceramento dramático da subjetividade poética. É bom lembrar que Álvares de Azevedo era um adolescente bem-nascido e sofria da típica dificuldade em conciliar o desejo carnal com o sentimento amoroso, situação bem comum à segunda geração romântica brasileira. Tome-se como exemplo os seguintes versos de O Poeta:
Era uma noite – eu dormia
E nos meus sonhos revia
As ilusões que sonhei!
E no meu lado senti...
Meu Deus! por que não morri?
Por que do sono acordei?
No meu leito – adormecida
Palpitante e abatida,
A amante de meu amor! (...)
Nesse trecho, estão bem representados os temas principais da primeira parte do livro. Diante da impossibilidade de realizar seus impulsos, o eu-lírico sublima os desejos, refugiando- se em um mundo imaginário de virgens idealizadas, de anjos e de espuma. Para isso, a atmosfera noturna é o ambiente preferido: na noite, os contornos se desvanecem, os limites se desmaterializam.
O mesmo desejo de fuga para estados fluidos de semiconsciência explica a grande presença de imagens que sugerem o sono ou a morte. Os adjetivos antitéticos do penúltimo verso citado, “palpitante” e “abatida”, sugerem o conflito básico entre o impulso de vida (Eros) e o de morte (Tânatos). Essa ambiguidade se cristaliza no verso a seguir, em que “a amante” não se relaciona diretamente com o poeta, mas com seu amor. Trata-se de uma configuração quase exemplar do amor platônico, que não se dirige a outro ser, mas ao próprio ato de amar. É uma poesia de seres e idéias abstratos, imersos em uma noite nebulosa.
O eu-lírico sofre uma cisão interna que se reflete também num aspecto cronológico. Ele sente que sua alma – nutrida de vastas leituras – é velha, enquanto o corpo – desprovido de experiências amorosas – é ainda muito jovem. No poema Saudades, há um exemplo disso:
Foi por ti que num sonho de ventura
A flor da mocidade consumi, (...)
A “mocidade”, ou juventude, foi “consumida” por outra que aparece ainda de forma indefinida e que se revelará, no decorrer do poema, um amor de infância do poeta, com quem ele lia romances e poemas e se sentia vivenciando grandes amores da literatura romântica. É o caso das citações dos personagens Carlota e Werther, Jocelyn e Laurence, que encarnam amores difíceis ou frustrados. A mesma fuga para o sono e para a morte é aqui a fuga para a literatura, que consome a juventude do poeta-leitor. O poema segue tratando dessa perda da mocidade:
E às primaveras digo adeus tão cedo
E na idade do amor envelheci!
Há aqui uma inversão do antigo tema do carpe diem (aproveita o dia). Diferentemente do uso clássico do tema, no qual um velho poeta olha para a juventude como o auge da beleza corpórea e trata da fugacidade do tempo, em Álvares de Azevedo um jovem olha para a velhice da alma. Ao fazer isso, sente as características da decrepitude do espírito humano.
SEGUNDA PARTE
No segundo momento de Lira dos Vinte Anos, há uma inversão das diretrizes poéticas. Em vez do céu, há a Terra; no lugar da alma, o espírito; substituindo o anjo, a lavadeira, cujo corpo atrai para o pecado. Passa-se do lamento choroso para a ironia sarcástica.
Essas alusões são claramente enunciadas no prefácio da segunda seção. O poeta, lucidamente, aponta ao leitor as mudanças e apresenta até o panorama literário da época, citando importantes autores e obras que se colocam no interior da mesma dicotomia. Suas palavras:
“O poeta acorda na terra. Demais, o poeta é homem. Homo sum, como dizia o célebre Romano. Vê, ouve, sente e, o que é mais, sonha de noite as belas visões palpáveis de acordado. Tem nervos, tem fibra e tem artérias – isto é, antes e depois de ser um ente idealista, é um ente que tem corpo. (...)”
A reiterada afirmação do corpo, que se opõe ao espírito, indica uma mudança poética substancial. O poeta vai agora tentar descer ao mundo das coisas e tratar com humor – e não tristeza – de sua inadequação em relação a elas.
Apesar da mudança no tom, os temas continuam os mesmos: a irrealização do desejo amoroso, o conflito entre o eu e o mundo, a fuga para a morte. Tudo tangido por um prosaísmo mundano. Objetos do cotidiano do poeta, como um charuto, um cachimbo, o vestido de chita, um cigarro sarrento, ganham direito à existência poética.
O poeta foge para o estereótipo de um mundo real, ou seja, um mundo que existe, mas que de fato não é o seu. Sabe-se que Álvares de Azevedo era um filho de família rica que nunca passou por privações materiais. Por isso, ao tentar figurar a realidade das classes menos favorecidas (como nos poemas em que fala do amor a uma lavadeira ou do poeta sem dinheiro), opera, em outros moldes, uma idealização semelhante à da primeira parte. Em outras palavras, quando o poeta tenta romper com o misticismo da primeira parte, cai numa idealização às avessas, pois ainda se encontra preso às formas impostas pela estética romântica.
Fonte: http://guiadoestudante.abril.com.br
2º ato: Lira dos vinte anos - críticas 1/3 - Machado de Assis
Um poeta houve, que apesar da sua extrema originalidade, não de receber esta influência a que aludimos, foi Álvares de Azevedo. Nele, porém, havia uma certa razão de consanguinidade com o poeta inglês, e uma íntima convivência com os poetas do norte da Europa. Era provável que os anos lhe trouxessem uma tal ou qual transformação, de maneira a afirmar-se mais a sua individualidade, e a desenvolver seu robustíssimo talento.
A essas palavras acrescentávamos que o autor da Lira dos vinte anos exercera uma parte de influência nas imaginações juvenis. Com efeito, se Lord Byron não era então desconhecido às inteligências educadas, se Otaviano e Pinheiro Guimarães já tinham trasladado para o português alguns cantos do autor de Giaour, uma grande parte de poetas, ainda nascentes e por nascer, começaram a conhecer o gênio inglês através das fantasias de Álvares de Azevedo, e apresentaram, não sem desgosto para os que apreciam a sinceridade poética, um triste cepticismo de segunda edição. Cremos que este mal já está atenuado, se não extinto.
Álvares de Azevedo era realmente um grande talento; só lhe faltou tempo, como disse um dos seus necrólogos. Aquela imaginação vivaz, ambiciosa, inquieta, receberia com o tempo as modificações necessárias; discernindo no seu fundo intelectual aquilo que era próprio de si, e aquilo que era apenas reflexo alheio, impressão da juventude. Álvares de Azevedo acabaria por afirmar a sua individualidade poética. Era daqueles que o berço vota à imortalidade. Compara-se a idade com que morreu aos trabalhos que deixou, e ver-se-á que seiva poderosa não existia, naquela organização rara. Tinha os defeitos, as incertezas, os desvios, próprios de um talento novo, que não podia conter-se, nem buscava definir-se. A isto acrescente-se que a íntima convivência de alguns grande poetas da Alemanha e da Inglaterra produziu, como dissemos uma poderosa impressão naquele espírito, aliás tão original. Não tiramos disso nenhuma censura; essa convivência, que não poderia destruir o caráter da sua individualidade poética, ser-lhe-ia de muito proveito, e não pouco contribuiria para a formação definitiva de um talento tão real.
Cita-se sempre, a propósito do autor da Lira dos vinte anos, o nome de Lord Byron, como para indicar as predileções poéticas de Azevedo. É justo, mas não basta. O poeta fazia uma frequente leitura de Shakespeare, e pode-se afirmar que a cena de Hamlet e Horácio, diante da caveira de Yorick, inspirou-lhe mais de uma página de versos. Amava Shakespeare, e daí vem que nunca perdoou a tosquia que lhe fez Ducis. Em torno desses dois gênios, Shakespeare e Byron, juntavam-se outros, sem esquecer Musset, com quem Azevedo tinha mais de um ponto de contacto. De cada um desses caíram reflexos e raios nas obras de Azevedo. Os Boêmios e O poema de frade, um fragmento acabado, e um borrão, por emendar, explicarão melhor este pensamento.
Mas esta predileção, por mais definida que seja, não traçava para ele um limite literário, o que nos confirma na certeza de que, alguns anos mais, aquela viva imaginação, impressível a todos os contactos, acabaria por definir-se positivamente.
Nesses arroubos da fantasia, nessas correrias da imaginação, não se revela somente um verdadeiro talento, sentia-se uma verdadeira sensibilidade. A melancolia de Azevedo era sincera. Se excetuarmos as poesias e os poemas humorísticos, o autor da Lira dos vinte anos raras vezes escreve uma página que não denuncie a inspiração melancólica, uma saudade indefinida, uma vaga aspiração. Os elos versos que deixou impressionam profundamente, 'Virgem morta', 'À minha mãe', 'Saudades' são completas neste gênero. Qualquer que fosse a situação daquele espírito, não há dúvida nenhuma que a expressão desses versos é sincera e real. O pressentimento da morte, que Azevedo exprimiu em uma poesia extremamente popularizada, aparecia de quando em quando em todos os seus cantos, como um eco interior, menos um desejo que uma profecia. Que poesia e que sentimento nessas melancólicas estrofes!
Não é difícil ver que o tom dominante de uma grande parte dos versos ligava-se a circunstâncias de que ela conhecia a vida pelos livros que mais apreciava. Ambicionava uma existência poética, inteiramente conforme à índole dos seus poetas queridos. Este afã dolorido, expressão dele, completava-se com esse pressentimento de morte próxima, e enublava-lhe o espírito, para bem da poesia que lhe deve mais de uma elegia comovente.
Como poeta humorístico, Azevedo ocupa um lugar muito distinto. A viveza, a originalidade, o chiste, o humor dos versos deste gênero são notáveis. Nos Boêmios, se pusermos de parte o assunto e a forma, acha-se em Azevedo um pouco daquela versificação de Dinis, não na admirável cantata de Dido, mas no precioso poema do Hissope. Azevedo metrificava às vezes mal, tem versos incorretos que havia de emendar sem dúvida; mas em geral tinha verso cheio de harmonia, e naturalidade, muitas vezes numeroso, mutíssimas eloquente.
Ensaiou-se na prosa, e escreveu muito; mas sua prosa não é igual ao seu verso. Era frequentemente difuso e confuso; faltava-lhe precisão e concisão. Tinha os defeitos próprios das estreias, mesmo brilhantes como eram as dele. Procurava abundância e caía no excesso. A ideia lutava-lhe com a pena, e a erudição dominava a reflexão. Mas se não era tão prosador como poeta, pode-se afirmar, pelo que deixou ver e entrever, quando se devia esperar dele, alguns anos mais.
O que deixamos dito de Azevedo podia ser desenvolvido em muitas páginas, mas resume completamente o nosso pensamento. Em tão curta idade, o poeta da Lira dos vinte anos deixou documentos valiosíssimos de um talento robusto e de uma imaginação vigorosa. Avalia-se por aí o que viria a ser quando tivesse desenvolvido todos os seus recursos. Diz-nos ele que sonhava, para o teatro, uma reunião de Shakespeare, Calderon e Eurípedes, como necessária à reforma do gosto da arte. Um consórcio de elementos diversos, revestindo a própria individualidade, tal era a expressão de seu talento."
1º ato: Biografia

Hoje, vamos conhecer a vida do sr. d'Azevedo.
Em São Paulo, no dia 12 de setembro de 1831, nasce Manuel Antônio Álvares de Azevedo, filho de Inácio Manuel Álvares de Azevedo e Maria Luíza Mota Azevedo. No mesmo ano, foi com a família para o Rio de Janeiro, onde concluiu o primário, sempre tido como excelente aluno.
Aos 16 anos, volta para São Paulo e matricula-se na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Nessa cidade, não se sabe ao certo como foi sua vida. Alguns dizem que viveu uma intensa e tumultuada vida boêmia, já outros falam que sua vida foi calma e serena. O que sabemos ao certo é que durante esse período sua produção poética foi muito intensa.
Não chega a bacharelar-se; morre no Rio de Janeiro, ao dia 25 de abril de 1852 com 20 anos. Diz-se que morreu após uma queda de cavalo, cujas complicações ocasionaram um tumor na fossa ilíaca. Outros diagnósticos dizem que teria morrido de tuberculose agravada devido ao tombo, ou ainda, que o poeta teria morrido de apendicite.
Sua obra é de publicação póstuma, composta por poemas, contos, um romance, peças de teatro (escritas entre 1848 e 1851), além de ensaios, cartas e discursos. Em 1853, um ano após a sua morte, foi publicado o livro Lira dos vinte anos, cuja edição o poeta havia deixado preparada.
Disse dele Edgard Cavalheiro: "Faltou-lhe para ser gênio, exclusivamente isto: tempo. Fez vibrar todas as cordas da lira, do mais ingênuo lirismo ao mais desabusado erotismo. É zombeteiro e irônico, alegre e triste, vibrante e meigo, sensual e pudico. Devemos-lhe a introdução do humor na poesia brasileira."
quarta-feira, 1 de junho de 2011
(abre a cortina)
Seja bem-vindo, esteja você aqui propositadamente, ou por erro na hora de digitar o link, ou por ser meu professor de literatura.
É hora de entrar em cena. Cabe a mim as apresentações.
Quem vos fala atende por Letícia, e este blog é um trabalho que irá compor a nota de literatura da unidade. Tratarei de Álvares de Azevedo e de sua obra Lira dos Vinte Anos.
Espero poder ser-lhes útil em alguma coisa, a mínima que seja (espero também não errar/ter errado colocações pronominais).
Por ora, é o bastante. Cuidado com o spleen e o excesso de charutos e conhaque.
Até breve.