A obra é fruto dos dramas de um adolescente que se vê entre desejos e frustrações, vontades e decepções constantes, o que corporifica as tendências psíquicas de uma geração já que o Romantismo pode ser considerado um movimento de adolescência, isto é, marca-se pela ambiguidade de uma vida ao mesmo tempo frágil e poderosa.
Incompreendido na morbidez e na valorização de aspectos decadentes (melancolia, tédio, pessimismo, vício) Álvares de Azevedo se encontrou cansado precocemente da vida e sentia um desejo de fuga que concretizou através de sua poesia que, embora marcada pela introspecção e individualismo, relata as correntes obscuras de seus desencantos e receios.
Já na Epígrafe de Bocage percebe-se a intuição antecipada da sua decadência. Daí, talvez, ter se atirado aos livros como quem tem pouco tempo para entender o que é a vida e adquirir uma lucidez intelectual que o faz se referir a épocas, autores e obras distantes e estranhas à sua realidade.
Mergulhado no spleen byroniano e conscientemente baseado na contradição, descrente e derrotado, escreveu na Lira dos Vinte Anos os poemas mais significativos de sua obra poética. A metrificação sempre variada, mas imperfeitas, ritmos alucinantes comprovam que a liberdade criativa baseada na emoção, característica do Romantismo, haveria de ser respeitada.
A Lira dos Vinte Anos compõe-se do que há de melhor na produção de Álvares de Azevedo: Idéias Íntimas, Spleen e Charutos, Lembranças de Morrer, Se Eu Morresse Amanhã, É Ela! É Ela! É Ela! É Ela!, são alguns dos poemas mais expressivos do Romantismo gótico.
Estruturalmente divide-se em três partes; mas do ponto de vista temático, em apenas duas, pois a primeira e terceira partes têm temas assemelhados: a morte, a família, os temas da adolescência, o sonho, a religiosidade, a forma feminina como obsessão; a segunda parte, no entanto, traz o irônico, o "satânico", a mulher, ainda que em sonho, aproximada do erótico, carnal.
Primeira parte
É composta por 33 poemas, inicia-se por um prefácio que tem epíteto sugestivo de Bocage: Cantando a vida, como o cisne a morte. Contém poemas cuja temática é intimista: dores do coração, medo da morte, a mulher que ora se mostra, ora se esconde, a família, o sonho e a fantasia que se misturam principalmente através do jogo metafórico na erotização da mulher. Há nessa parte o aparecimento de símbolos que deixam entrever a sexualidade reprimida. O adolescente ingênuo inspira-se nos seus familiares, nas amadas virgens sonhadas e nunca reveladas exatamente, fazendo-se parecer sentimental e infeliz, sendo sua dor acalmada pela lembrança da mãe e irmã. Álvares de Azevedo é um anjo que chama seus versos de “primeiros cantos de um pobre poeta” que, logicamente, vive num “mundo visionário e platônico”. À face de Ariel, personagem de Shakespeare, a primeira parte representa o Bem, adolescente e casta.
Segunda parte
A segunda parte da Lira dos Vinte Anos é composta por 14 poemas e não se identifica tematicamente com a primeira e a terceira. Inicia-se também por um prefácio:
Cuidado, leitor, ao voltar esta página!
Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. Vamos entrar num mundo novo, terra fantástica, verdadeira ilha Baratária de D. Quixote, onde Sancho é rei; (...) Quase que depois de Ariel esbarramos em Caliban.
A pureza abre espaço para um porte demoníaco, macabro, irônico, amargo, sarcástico e cruel: a unidade do livro funda-se numa binomia. Duas almas que moram nas cavernas de um cérebro, verdadeira medalha de duas faces. Humor negro que valoriza a decadência e a morte e a fuga através da dispersão cultivando o spleen. O poeta é um moço que envelheceu precocemente e entra em conflito com a realidade. E importante notar a proximidade com a prosa em algumas poesias dessa parte onde teríamos Caliban, personagem de Shakespeare, que representa o mal, o lado escuro dos seres, a desordem, o desequilíbrio, a face do próprio Álvares de Azevedo, segundo ele mesmo, tragado pelos vícios e amadurecido antes do tempo.
Dito isso, está claro que o Álvares de Azevedo quer fazer ressaltar algo: na Parte II estão contidos os poemas irônicos, as paródias, um suposto "satanismo" somente encontrado em Noite na Taverna.
Terceira parte
Contém trinta poemas, formando ao todo 77 composições poéticas. Ressurge o casto e sentimental poeta que leva às últimas conseqüências seu anti-romantismo, constituindo-se da sua própria superação da idealização feminina e do amor platônico.
Não há nenhum prefácio, nenhuma indicação de abertura; mas sabemos que, tematicamente, encontraremos a mesma intenção da primeira parte: devaneios adolescentes, amor inacessível, erotização metaforizada, família, os temas da morte e do sofrimento, o poeta tão jovem, e o mesmo intimismo, o tom inquieto e confessional.
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